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Um dia




Um dia, num mundo fantástico, não vão haver histórias, nem mistérios.
Vamos olhar no rosto de alguém e ver a luz do seu interior.
Gostava que esse dia chegasse rápido. Deixava-se de jogar a vida nos bastidores, nos sorrisos de socapa, nas roupas de luxo.
Morria o "olá eminência e excelência" e nascia o "olá humano; olá irmão".
É utópico tudo isto, mas quem não queria? Quem não queria sair à rua e não ter medo? São os juízos, é a moda. A diferença de berço ou a beleza de rosto.

Um dia estava sentado à espera do autocarro. Veio ter comigo um toxicodependente pedir-me para a droga, mas não mentiu, disse mesmo "menino
   (sim que eu tenho cara de puto pequeno, raia miúda ou de gajo pequeno saco de veneno)
eu não vou mentir estou em ressaca e precisava de mais dois euros para uma dose".
Mal ele se calou dei-lhe o dinheiro e sabem porquê? Foi verdadeiro. Era para o vicio, e? Aquele mostrou que precisava de algo de mim.
Desculpem por não preferir aquelas torres de marfim orgulhosas, que se enfeitam todas e dizem "pá, sou tão perfeito!". Desculpem por não gostar de autómatos que descobriram que têm tudo. E pior, têm tudo por fora que por dentro valha-nos Deus e os santos das procissões de Verão que vêm à rua ver toda a gente e sabem. Sabem dizer lá no céu quem cá anda para ser fala das bocas do mundo.

Um dia, num mundo fantástico,
   (ao jeito das músicas de Berlioz cheias de instrumentos claros misturados com barulhos estridentes e arrebatadores)
as pessoas não vão usar roupas, mas túnicas simples. Sem enfeites nem folhos. Tudo simples. Claro como água, puro como o homem que chora de arrependimento.
É assim que gostaria do mundo, com mais drogados conscientes da sua droga e menos doutores a fugirem dos seus medos.
Comentários
1 Comentários

1 comentários:

atravesdajanela disse...

Eu não queria!
Viver sem mistério seria terrível! Será que estamos prontos para conhecer verdadeiramente os outros? Estaremos prontos para conhecer o "lado lunar" de todos os que nos rodeiam?
Sou dos que gostam de sofrer com algumas desilusões. Contudo, o sofrimento é largamente ultrapassado pela surpresa e beleza do conhecimento que se vai construindo...