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Um copo



Vou morrer hoje, está decidido.
Tem ali uma ponte em ferro, não sei de que data nem sua origem. Vai ser a minha ultima morada, a minha ultima amiga. Viro-me para ela e digo: "olá amiga" e depois o fim.
Porque vou fazer isto comigo? Curiosidade, cansaço, desespero, solidão, tristeza, horror, doença, fome, desilusão, terror, loucura e  indecisão.
"Que raio sou eu, querida ponte?" - Não reponde. Mal educada, nem para amiga serves. Já faz luto por mim e eu ainda vivo, com o coração a bater e os pulmões cheios de esperança. Sinto o ar entrar aos magotes, puxado pela vontade de saber o fim disto tudo. Antecipou-me o funeral, as partilhas,as missas da praxe e o esquecimento final.

Mania de me quererem finado antes do tempo, a mim e a tantos vagabundos que se passeiam pela terra. Esses homens sem eira nem beira, mesmo que tenham casas, sexo, jogo e poder. Essas almas plenamente individuais e, por isso, tão sós.  Torres de marfim, plenas de coisas e sem nada.
Ou os únicos, especiais, geniais. Tão grandes que ninguém os abarca. Tão leves que se desprendem das pessoas, como balão em dia de festa na aldeia.

No fim de contas, não me mato.
A ponte é mal educada e fria.
Vou ficar só mais um copo.

PS. Vale mais a imagem que o texto.
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Ana Rosa disse...

Está muito triste mas muito interessante :)

Bernardo disse...

Queres servir um copo, também, a mim?
Aproveita para ficar um pouco mais...