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Longe



Caiem umas gotas na pia da casa de banho do fundo. A casa silenciosa rumina os efeitos dum dia chuvoso. As árvores dançam lá fora e pequenos rios falsos correm pelas rochas infestadas dum musgo novo. O cão uiva num som dilacerante e os últimos pássaros do renascimento fogem.
Aqui, corre uma aranha pela mármore da janela, o ventilador faz um som monótono e crepitante, como se fogo eterno o devorasse e fizesse avançar. Algumas formigas exploram o tapete de forma incerta e inevitavelmente calamitosa. Não há lá nada, só manchas de pão partido e cabelos raros. Acumulações de pó assentam de forma ancestral nos cantos, nas mobílias, nos parapeitos de pedra, nas roupas do guarda fatos, nas frinchas antigas do soalho, nas ranhuras dos vidros, nas articulações das portas, no espaço dos lençóis, nas teias de aranha, nos cubículos das baratas e nas penas da travesseira onde estou.
Restos de aves mortas embalsamados nesta cobertura alva de pano ornado. Vejo umas rendas devotas em azul e uns botões de plástico normal. Trinco o pano fresco desta fronha como se desejasse engolir em seco a dor.
"Estás longe"
Um peso infinito sobre os meus ombros suportado por um pano inerte, amoroso, mas falso.
"Estás longe"
Gritam as entranhas num gemido abafado. Lá fora o cão ainda sonoro e o vento corre indefinidamente mas lá faz o seu trabalho. Será que te toca, será que sentes vento?
"Estás longe"
Tão longe que nem pássaros aflitos te alcançam. Podem correr, saltar, voar até ao peso do seu corpo os sepulta, mas nunca te alcançaram.
"Estás longe"
Verdade infinita. Roço o corpo pelo espaço poeirento dos lençóis, toco o ventre com os braços. Reviro os olhos que teimam não fechar. Desejo calar o ventilador e ouvir um silêncio sem fim, como se as estrelas parassem suas explosões invisíveis e a terra repousa-se num ponto seguro.
Vontade não me falta de parar o mundo, mas os pássaros não deixam. Como pena de incapacidade sofro aqui estirado, rodeado de bichos temíveis mas insignificantes. Correm-me as lágrimas pelas covas da cara e suja-se a fronha tão bem bordada. Terá sido minha mãe? Não sei ... Sei pouquíssima coisa sem ti.
Sinceramente, não sei nada que preste sem ti. Fico um acumulado de remendos desejosos de ser pano inteiro. Rodopio em voltas gritando o teu nome de forma silenciosa e, portanto, letal. Já desejei o sono, o esquecimento,a  paz abúlica de ser só mas já deixei tal praia. O batel partiu e levaste para longe a calma fria.
Por mim rompia a fronha, soltava as penas e fazia asas. Corria pelos céus escuros como os pássaros receosos do Inverno.
E, no fim, ia ter contigo amor.
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

helder disse...

acabo de ler o teu texto publicado à poucos minutos, e tenho te a dizer que o texto faz transparecer, que tens a casa um bocadinho suja sugiro que a limpes! E tens que deixar os pássaros em paz...
abraço!

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Olha, gostei muito. Gostei sim senhor. Parabéns.

abraço