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Doravante



Quero uma estrela ali, naquele ponto onde roda o sol. Aquela bem escura pelo fumo dos carros e onde as criancinhas brincam com uma erva de cimento.
Um dia li a história do cimento e da mãe neurótica morta.
O cimento na pele dela e nos espaços das unhas das crianças. A morte ali escondida numa imagem de prédio e construção.
Talvez pobreza, ou receio, mais que tudo inocência pavorosa, assustadiça e constante.
As crianças infelizes têm medo de tudo. Vegetam nos restos das esperanças alheia com se suas fossem, reproduzem nos dedos as lengalengas da TV do mercado, correm em jogos próprios revestidos duma rebeldia prodigiosa e falsa. Nas costuras da roupa transportam o suor intrínseco dos restos de crença e uma música de calamidade incompreendida.
São elas a revolução, o desprezo legal justo dos fracos que vêm a morte ser-lhes imposta pelo dolo dos capatazes. Como se as calamidades do mundo ficassem presas ao tarde dormir, às voltas bruscas do relógio que corre, ou a dor alheia se lhes fizesse a moça mais insuportável.
As crianças pobres querem estrelas perdidas, anseiam pelas migalhas das mesas mais fartas e até Deus as recusa num gesto de asseio moral e brevidade de incomodo. Portanto, permitam que o sol pare de se inquietar desde Galileu e arranquem uma estrela escura para mim.
Vou enterrar o desprezo pelo mundo numa morta coberta de betão.  
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