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Solenidade




Tens uma beleza de corpo !
Pronto, confesso ...
Aquele ar de perda, de despreocupação que só quem é belo tem em curvas e saliências assustadoramente magnéticas.
Meu Deus como tens um bom corpo !
Podiam as palavras morrer, acabar a dormência na ponta da língua e até o mistério ser revelado,
ai,
podia a esperança fugir para a foz como uma tarde alegre entre amigos,
o teu corpo ficaria como cânone.
Podes mentir,
infelizmente podes falsear tudo, mas a visão desconjuntada que suporta as horas e o frio poisará sempre sobre essa alva beleza, esse ar de pequenez perante o mundo.
Sei-te as frases de cor,
as faladas,
o susto que um sobressalto pode provocar ao equilíbrio sempre frágil dos planos.
A resposta do corpo às agressões é a defesa e a defesa é o repúdio. Proteger os actos das palavras escritas num momento em que tudo tinha outra cor.
Imprimir segurança à vida e renomear os sentimentos numa fórmula nula,
é que pouco fica quando nada se sente e a aí a receita é mais eficaz, mais científica.
O fármaco ? a indiferença,
nada subsiste  à indiferença directa,
aquela que se sente na pele mesmo que invisível
(parede. olhos fixos. distância e voz fraca)
aquela que é letal por desprover o oponente de resposta.
Nada se pode contra o nada, são os mistérios da natureza. O que sobra a um confronto com esta verdade maior fica impresso nos pedaços de alma que deixamos nos cantos.
Um pedacinho de sonho deixado como renda que o tempo cobra. E depois a noite de descer os montes mesmo quando dia, ver as faces mas não ver alguém, sentir-se no isolamento cadavérico de um corpo que não exprime,
que não imprime,
que quase se destrói como o espelho após o móvel ser velho e o toucador já não ter Dama nem Senhora.
Meu Deus nós somos tão sós,
eu estou tão irremediavelmente só !
As dores infinitas dos que morrem e eu que fico aqui a cortar sonhos por planos. As portas, os passeios e os carros,
aqueles todos ali a dizerem-me "que queres ? avancemos !" e eu que não quero avançar,
eu que só quero onde reclinar a cabeça.
Serei fraco ?
Pouco interessa. A vida é feita dos segundos que nos abalam, aqueles que nos levam da terra ao céu e rapidamente nos reconduzem à caverna. Guardar num canto qualquer cá dentro
(sei tão pouco de anatomia)
aqueles desejos que nem conhecemos,
aqueles que escondemos do mundo com medo que sejam roubados,
aqueles que nos fazem aspirar ao silêncio e ao conforto.
Esperar por um espelho que nos engrandeça, que nos reflicta a alma e nos guie até aos sonhos necessários.
Chamam amor a isto,
talvez seja só viver, já que esta patética histeria de correr em busca do impossível por uma bagatela de nuvens lançadas no interior da noite é um grito de insistência por ares mais frescos,
por sois mais brandos,
por domingos onde acordar seja ver que se dormiu no lugar onde realmente temos de estar. No fundo, estar vivo.
Talvez tenha o peito aberto,
sempre o tive,
hábito de crer no poder da bondade, essa solenidade que os homens honram em doses reduzidas por descrerem no seu poder curador.
Acredito que é o tempo que esconde tudo isto, a confusão dos dias não nos deixa a mais. Quem pode dissolver-se numa aventura quando as janelas são tão altas e as cidades tão impiedosas ? Sobram-nos poucas esperanças quando as apostas são tão custosas e carregadas de um risco que ninguém nos ensinou a tomar.
Perder tudo ou ser alguém, são poucas as hipóteses. E quando se vê a porta a fechar no meio de uma frase, quando se entende que a espera foi inútil e as noites claras de Proust intensamente reais, nada nos sobra que não seja calcar a alma por um caminho de regresso.
Ficar oco.
Ficar perdido e oco.
Ficar admirado, perdido e oco.
E mesmo depois da derrota, admirar o corpo, a forma como os olhos se reviram, o andar das pernas pequenas que sustentam um peito do tamanho do regaço de uma mãe. Mesmo ferido de morte até ao ponto de sentir a humilhação na garganta em forma de ácido,
(penso ser ácido, sei pouco de anatomia, peço perdão)
esperar que voltes e sorrias como quem prega uma partida.
Infelizmente não é cómico,
é trágico
e o mar todo da Odisseia a separar a esperança de casa,
um mar lilás como os paramentos de defunto.
Podes dizer que este caminho foi o que escolhi, que este Sul foi uma navegação minha e que no fundo, o canto entoado foi um fado dum beco meu qualquer.
Dou-te a razão, mas não é de razão que isto trata.
Agora lambidas as feridas, quero que saibas que tens um corpo lindo.
Quanto a mim ficarei só no desterro que só os sábios entendem. Dias sepultados nos dias e ferozes saudades escondidas numa pele branca, quase enferma. Um Inverno imposto pelos saltos do coração, porque quando se perde o gosto da aventura só nos sobra o mundo e nada mais.
Ser físico, eis a solução.
De milagres está o espírito cheio, ficarei pela viuvez,
solene,
até me rever numa estrela mais próxima do céu. 

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