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Personagens



Não sei dizer isto por palavras. Portanto, não se queixem no fim, lamentando-se da sequência , ou das vozes que vão falando como que libertas de um baú escondido.
Gostava de ter coisas que não tenho.
(por coisas entenda-se sonhos, nuvens, esperanças. quantas esperanças me fazem falta! então hoje ...)
Anseio por ser personagens que não sou.
(esta das personagens saiu-me. sabem quando nos sentimos fora?
eu bem disse que isto ia ser difícil ...
imaginem-se num dia de sol. as florzinhas assim espalhadas, ocupando o espaço pertencente ao ar. nisto cantam pardejos num cipreste qualquer. e em vez de conversas, olhos fixos no sol. aquele queimar, são as personagens. lindas e dolorosas)
Em vez dessa multiplicação desejada, arrasto-me por continuidades. Anseio sair para o jardim mas ele fugiu. Ganhou pernas o falso. Ainda à pouco era criança e me dizia: "gosto tanto de ti. Vou casar contigo!" Agora foi-se para uma terra onde não há nada. Pelo menos para mim não há.
Já lá não chego.

Furaram as primeiras pétalas o ar, arrastando, com a sua delicadeza impossível, o ar vazio. Cada planta que cresce é um sinal de esperança. Vemos nada num dia, depois umas coisas verdes mal amanhadas,
   (abrimos a boca em sinal de espanto. porra, já passou! e eu que nunca vi! estava tão desorganizado...)
de seguida, começam as guerras por espaço, as lutas pela visibilidade. Quando se dá conta, já a planta é madura,
(também existem plantas maduras. nada de culpar quem não pode trazer uma cereja ao mundo. os fracos são os mais verdadeiros)
e o que era horizonte sem fim ganha contornos de casa.
Aproximamos a face da vencedora e choramos, sabemos o futuro dela, o nosso futuro. Com medo, assentamos raízes num sofá parado defronte do rebento. Até que venha um sono e a protegida corra,
   ("vamos casar". tão mentira)
pule, cante uma marcha nacionalista vinda de uma pátria estrangeira a nós.

Não sei dizer isto por palavras. Uma menina leva flores para uma campa. A pedra fria estendida sobre um chão sagrado
   (não pises as campas. falta de respeito)
servindo de porta entre nós e outros. Tranca-se essa gente querida à chaves, naqueles quartos seguros onde ninguém entra. Coisa de adolescentes essa bizarrice de morrer, enfia-se a pessoa ali dentro e não fala com viva alma. Mesmo birra de menino.
Por isso levam flores aos mortos. Como as malandras fogem,
(a flor é um ser com muito pouco chá. cheia de adornos e francesices. cativam os olhos. inebriam a alma. e depois desaparecem. há quem diga que elas morrem. eu cá li o Princepezinho e já não vou em cantigas.
são é umas egoístas espalhafatosas. por isso vão para os mortos. esses adolescentes que nos levam tanto)
ainda se lembra o aborrecido de abrir a porta para apanhar as ludibriadoras fugidias e, cá fora o morto, trata-se de lhe dar educação para gente grande. Nada de morrer, coisa mais infantil.

Tudo isto para quê? Tenho uma vizinha que manca mas é feliz. Pelo menos parece. A aleijada ri-se muito. Mal criada, só pode, nunca lhe ensinaram que rir é falta de educação.
(bem, sem mais desvios. vá lá acabar isto)
Recomeçando, a minha vizinha ri-se muito. Fala de conversas com a lua, partidas de cartas com as estrelas,
(consta que essas endiabradas gostam da batotice. até universo nos mente)
coscuvilhices com as árvores
   (para que conste, as árvores são sérias. essas estão sempre no mesmo sítio)
em hora do chá.
Foi a vizinha que me falou das personagens. Vinha ela mais uma catrefada de "semi-pessoas"
(desculpem a palavra tão feiinha. melhor que arranjei)
numa animação pegada. Qual Carnaval ou S. João maroto, aquilo sim era um pagode.
Eu, como pessoa séria, perguntei logo: "de onde vem isto mulher?"
Ela disse: "estas sou eu. não vês as tuas personagens? és tão velho rapaz!"

PS:
Gostava de apanhar um jardim que me suportasse. Sempre tinha alguma coisa.
Comentários
1 Comentários

1 comentários:

Bruno disse...

gostei, muito inspirador :)