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Porque hoje ...




O tipo saiu dum café onde foi comprar tabaco.
Começou a fumar tinha catorze anos. Era um puto. Andava com uns tipos e como eles fumavam lá teve de meter aquilo à boca. Detestou completamente. Demorou meses até se habituar, mas não queria ser o maricas do grupo.
Por fim lá se amanhou com a chupeta. Agora tinha de comprar aquela treta sempre, muito mais quando ia para a noite. Portanto, parou no café, chamou o empregado e meteu os trocos na máquina. Ela deu-lhe o material desejado e a relação acabou ali.
Saiu do café e a história começa assim.
Acendeu um cigarro na boca, sentiu o fumo tocar o palato e rodear os dentes. Era uma sensação voluptuosa quase lembrando um coito num leito de seda. Sentiu o fumo no canal respiratório e o desejo acalmando lá dentro.
Aonde dentro, ele não sabia.
Nunca ninguém sabe.
Era bom saber.
Descia a rua que dava ao beco onde ficava o bar da "espécie" mais badalado. Lá dentro teria outros e outras como ele. Nada que o aliviasse, eram todos estranhos à procura. Lá no fundo
(onde, não lhe perguntem)
ele detestava aquilo. Detestava estar só aos vinte e seis anos. Detestava encontrar o mesmo grupinho onde discutiam as mesmas coisas de sempre. Detestava aquela liberdade sufocante que lhe provocava lágrimas na almofada. Mas não sabia sair.
Descida a rua, avistou os colegas e começou o papel da noite. Actuou em uníssono com o amigo das bebedeiras e disse que ia ser a noite da vida dele. O outro respondeu entre sorrisos: "isto é comer um povo e curtir o som". E era esta a premissa, encontrar um orgasmo fácil com o corpo mais "perfeito" dos corpos presentes.
Dirigiram-se ao beco, passaram o segurança e lá estava o quadrado onde passariam as horas do sono. Naquele espaço escuro, preenchido com barulho e iluminado pelo desejo e luzes estranhas, seriam dados os passos de mais uma rotina comum.
Estava condenado - pensava.
E um sabor de derrota na boca que já lhe subia aos olhos. Mal sentiu uma lágrima foi pedir álcool. Nada como desinfectar as feridas até ao esquecimento. Era essa a segunda premissa da noite, esquecer. Bebeu do copo preenchido com gelo, cor e analgésico e entregou-se à luxuria que um lugar daqueles exige. Temos de ser sempre bons actores, ao ponto de gostarmos da morte e do vazio.
Dançou, viu um povo, beijou um povo, enrolou-se com um povo e sentiu uns orgasmos. O tempo correu, saltou e fugiu. A bebida já lhe subia ao entendimento e lhe toldava a visão. Acabou vomitando no beco, com as calças descidas e um pedaço de carne humana lhe arrancando calafrios de prazer.
No fim, ou seja, de manhã, foi levado para um carro. Deitaram-no como um soldado ferido, ou um amante desolado. Sentiu o carro arrancar, viu as árvores a correr e sentiu o fim da peça.
Puxou um cigarro, olhou o sol a nascer e desejou ser mais, mas já era tarde.
Dormiu.
Comentários
1 Comentários

1 comentários:

Joana Meneses disse...

Quem me dera um dia ter esta escrita: tão pormenorizada, tão boa e criativa. Adoro mesmo!