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Pessoas ambulantes




Quando o mundo souber que escondemos debaixo do tapete as pessoas ambulantes. Essas que gravitam entre nós e o mundo delas.
Como vai ser?

O pó acumulado de caras vistas constantemente. São vizinhos, amigos, conhecidos, meninos, bebés
   (gostava de guardar abraços em baús)
ou senhores de tal misturadas com donas de acolá.
   (tudo ao jeito de arca do tesouro. não sei. gostava)
Planos de rostos, perfis de gente triste, sépias de gente andante que caiu. E tudo isto pó por cima de um baú
   (mania esta das arcas. mania de guardar músicas. eu já não danço isso!)

Olha não sei com vai ser, nem imagino. Nunca fui bom a guardar histórias, muito menos pessoas. Um dia vai-me sair tudo pelos olhos em pedras de tábua da lei. E depois de toda aquela panóplia de gente ver a luz do dia, seja o que a vontade divina quiser.
É. Vamos deixar na mão de Deus.  A autoridade criadora é sempre sapiente. Ele manda de lá exércitos vestidos de branco, cheios de arcos misteriosos carregados de amor, com cornetas tocando Mozart à forma dos Céus e fica tudo mais certinho.

Tenho pó nas entranhas:

José Maria Duarte
   (não sou bom para nomes. A ... Z. alfa, beta, delta ...)
saía todos os dias para trabalhar numas fiações imundas onde, durante 10 horas, era castrado pelo patrão, mais a máquina e a parvoíce dos comentários do costume.
Sempre que entrava na escravidão paga a merreca, via uma mulher com baldes de plástico azul, lembrando loja dos 300s ou chinesices  inúteis de tão feias e feridoras do bom gosto artístico.

Maria da Luz
   (nomes, já se sabe a história. mania de limitarem tudo)
sofria do mal da pobreza. Como remédio para tal maleita genética tomava carteiras de autocarro sufocado em hora de ponta, comprimidos de hipermercados cheios em dia de descontos e vacinas mensais de despesas impossíveis de pagar.
Para sustentar o povo lá do casitéu onde despendia a côdea de horas de sobeja, metia-se numa bata normal, ferida de riscas azuis num padrão vertical de presa a um mundo sem saída, e trabalhava como mulher-a-dias numas fabriquetas.
Entrava às oito da manhã para a cela e só saía numa hora qualquer a tempo da carteira da tarde. Pelas oito e trinta da manhã, lá passava pela entrada dos trabalhadores com baldes fuleiros, cheios de água carregada de químicos velhacos para o meio ambiente.
Passava e sentia-se mulher. Ali tinha olhos para ver homens, mesmo que escravos tão fracos e presos como ela.

Carlos
saía num dia feliz, cheio de sol para um emprego novo. As árvores falavam dialectos de primavera, preenchidos de vogais marcadas por rebentos e consoantes vindas do som dos pássaros. Era um dia sorridente em que o sol nos bate na cara e só nos permite sorrir.
Sentia-se jovem, capaz, original, livre!
Aumentou o volume do auto rádio às oito e vinte minutos da manhã e cantarolou o sucesso da rádio.
Chegou à via dos carros ao molho e Duarte
   (este não quis falar. coitado. ainda não sabe quem é)
não o viu no meio das lágrimas salgadas e silenciosas que lhe pendiam do rosto.

Contando o pó:

Carlos não viu mais luz
Duarte tinha cancro, dois filhos, mulher, e insónias de assassino
José Maria Duarte e Maria da luz disseram olá pelo olhar.
Era mais um dia nas mãos do Senhor!
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