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Avenida 5, onde morámos





Depois querendo ser antes

Que vou dizer?
Não sei ... sinceramente te digo, não sei.
Já pedi às pedras a ciência de voar e aos pássaros o gosto pelo chão.

A tua boca, a minha boca e sangue.
Tomamos os lábios e roubamos a hora de dormir.
Já não podemos estar sós,
isso passou e ficamos aqui, neste pedaço de terra do nunca, a querer um relógio parado.

Não sei, não quero saber.
   (se olhares de uma janela vês paisagem. árvores. gente. e o teu reflexo)
Podia ser eterno, mas vais sair,
eu sei, isso eu sei,
vais partir.
Quando fores, beija-me abraça-me, e faz-me chorar.

Muito antes


Chegaste a casa, pousaste o jornal e vieste ver o jantar. Eu não estava na cozinha, nunca estou na cozinha. Sou mais de passear pela casa, olhar os espelhos, ver-lhes a essência, ou seja, nós.
Provaste o tempero, e deitaste sal.
   (o sal que agora percebo! tenho o mar dentro dos olhos ...)
De seguida, chamaste o meu nome com voz de cansaço. Eu não respondi. Nunca respondo, apareço e digo palavritas banais. Sou daqueles que disfarça o querer, o gostar, o ter vontade de quebrar as grades. Também, não te respondi porque não gostei de como saíste de manhã. Deixaste-me ali com frase presas na garganta e eu não perdoo a quem me deixa a guardar verbos nervosos. Preferiste um banho e sair. Nós que tínhamos prometido ser diferentes dos outros, já deixávamos conversas a meio.
Tu percebeste o meu silêncio, sentaste teu corpo estafado no sofá e ligaste a TV. Política, vias. Sempre gostaste de política e assuntos das nações. Eu apareci, sentei junto mas num plano distante, como sempre, ando na lua de um planeta longínquo.
Acabaste por falar da chuva e do sol, dos negócios, das gentes estranhas que viste nos caminhos. Eu continuei calado, não queria aquela treta, portanto deixei correr. O teu monólogo acabou, mudaste o canal e suspiraste.
Percebendo os sinais eu falei e acabei por falar dos verbos, adjectivos e substantivos escondidos dessa manhã.  Tu não respondeste nada, levantaste o corpo, ainda mais cansado, do sofá e procuraste o quarto. Encontraste uma mala e a tua roupa, fizeste um grupo de amigos com isso e apareceste à cozinha. Eu vigiava a comida e nem te olhei nos olhos. Falaste apressadamente em amigos, em família ou hotéis e prometeste voltar mais tarde. No fim saíste.
Desliguei o fogão, servi o jantar para dois, coloquei velas e iniciei as hostes. Meticulosamente a meio do ritual alimentício dei um pulo, gritei e parti o teu prato contra a parede. Vi os seus bocados espalharem-se pelo compartimento e o relógio parar, eram 17:55.
Em resumo, já era tarde ...  

Naquela hora


Relatório preliminar feito por um polícia que ia no caminho
   (os guardas da gente passeiam. são eles anjos, amigos, irmãos, estranhos. e, só às vezes, polícias)
Individuo de sexo ainda não determinado com múltiplas fracturas devido a acidente automóvel. Hora do óbito, 17:55, segundo o relógio que trago no pulso que penso ser universal.
   (o tempo de cada um é universal. não há outro. como posso ter um tempo onde não estive?)
Causas prováveis do acidente: excesso de velocidade
   (é sempre pressa em chegar. as pessoas correm muito. nunca estão no lugar certo)
e, talvez, álcool . Mas isso, só os peritos o poderão dizer.
Como nota pessoal acrescento uma mala com roupa e uma possível lágrima aqui perdida no meio dos vidros. Mas isto é o coração a falar, não o levem a sério. Perguntem antes aos números.

Depois


Vendi a casa. Já não cozinho. Agora há nada e falta. Adivinha de quê ...
Comentários
1 Comentários

1 comentários:

joana meneses disse...

pois, é verdade! gosto muito de boas fotos :p