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Nos cemitérios somos amigos



Vi-te numa curva do caminho antigo
(já ninguém usa aquilo. morreu. perdeu-se-lhe o gosto)
onde antes,
antes quando os pássaros eram mistérios,
íamos ver quintas misteriosas que eram muito longe.
Víamos campos de milho verde, o frio húmido desta terra mais a norte e a excitação de as aulas serem só pela manhã.
Ainda acreditas em aventuras ?
Ainda pensas que Jesus está no céu e em toda a parte ?
Desconfio que ...
desconfio.
Lembro-me das pedras enormes do campo de futebol, cristais muito valiosos ali aos montes e as corridas pelo desfiladeiro.
Sabes o que é aquilo hoje ? Uma porra dum campo a céu aberto. Já nem putos a jogar futebol. Já mataram a nossa geração !
Até a escola me disseram que vai fechar.
Não é triste ?
Horrível, penso ... penoso,  sinto ... necessário ...  sei.
Perdoa-me daqui a pouco ter de partir.  Tenho que ir ver os cabos eléctricas da gente. Ainda vou para longe hoje, tão longe que lá não existe este frio húmido, nem chuva nos inícios de Novembro, ou uma senhora professora que nos falava de rezar ao Senhor e trazia senhoras que contavam com violas na altura da Páscoa.
Vou para longe e tu ficas.
Não penses que é conversa de dono para animal doméstico.
(coro. não sei mandar. não sou duro, acreditem)
simplesmente ficas nestas pedras.
Já morreste e eu também !

Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Isto está belíssimo. São sempre os dramas que conferem maior beleza às coisas. DEixo um abraço assim ______________

Sílvia Rocha disse...

O texto está simplesmente fantástico :)*