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Todas as batalhas


Substância.
O rádio elétrico num som despercebido, a televisão alucinante numa rotina que fez parar os tempos, os corpos desconhecidos, porosos e indefesos na sua indiferença amorfa.
"Somos nada" - dizem.
É madrugada e a vida resumida a umas doses brancas de sustentabilidade. A noite que acrescenta à pele o arrepio de quem perde os contos da infância.
O que é claro, o que é escuro ? Quem sabe !
Néon nos olhos já búzios, ainda devem vir outros e os números a pesarem na cabeça.
Desconforto suplantado por uma ansiedade efémera, serei da medida destas coisas ?
Livros e discos a repousar na sua eternidade clássica, ali feitos júri. Toda a literatura do mundo a falar aos ouvidos enquanto a mente,
"quantos serão?"
repetindo, repetindo, repetindo enquanto se cita no labirinto uma frase fresquinha de Tolstoy.
- Estás bem ? Queres beber ?
Virar os olhos num branco arrancado à vastidão da solidão que todos carregamos, dobrar a língua na lentidão dos pais que visitam a campa do filho que foi antes:
- Estou bem. Que horas são ?
Proust a falar do tempo, uma cena mais estrondosa na monotonia do filme, ninguém vê.
A campainha toca e eu a jurar que os livros suspiraram, será que ainda vivem as almas dos irmãos Grim?
Chega uma manada de três, novas linhas, um barulho insurdecedor de excitação rebentando como caras amedrontadas.
Quantas mães saberiam a dor que carregavam?
Madrugada a dentro,
substância,
água a correr para o ralo.
Todas a batalhas se perdem quando o tu morre.
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